Hans Küng *

O PAPA E BUSH UNIDOS NOS ERROS

A.Ierardi

OS ERROS DO PAPA?

Hans Küng

“O Papa está no cargo há apenas três anos. Mas, não poderia aprender, pergunto-me, dos fracassos do presidente Bush? À sua grande inteligência e à sua sensibilidade não podem escapar os sinais admonitórios para o futuro de seu pontificado”, escreve Hans Küng, teólogo, em artigo publicado no jornal italiano La Stampa, 22-07-2008 e publicado por IHU.E o teólogo aponta cinco sinais. Eis o artigo.

Em abril Bento XVI festejou os seus 81 anos com George W. Bush na Casa Branca. Curioso: o Papa, embaixador de paz e verdade, brinda com um presidente de guerra que, mesmo aos olhos de nós americanos, com as mentiras e a propaganda arrastou uma grande democracia para uma guerra brutal, sem aparentes estratégias para dela sair.

A.Ierardi
O fato da comemoração do aniversário do papa na visita aos EUA , coincidência muito feliz para uma atitude inspirada do Sumo Pontífice que foi ao encontro de 70 milhões de católicos, 23% da população daquele país e 5% dos católicos no mundo.Trago aqui as próprias palavras do presidente Bush:«Aniversários são geralmente celebrados com os amigos mais próximos. Então toda a nossa nação se sente honrada por sua decisão de passar este dia conosco».

Hans Küng

Segundo uma sondagem recente, oitenta por cento dos americanos estão convencidos que os Estados Unidos estão “no caminho errado”. Daqui provém o slogan desta campanha eleitoral para a Casa Branca:

“Mudança”. E o Papa? À parte sua tardia admissão de culpa pelos inumeráveis casos de pedofilia entre o clero católico, não disse praticamente nenhuma palavra de mudança na igreja e na sociedade.

George W. Bush e Joseph Ratzinger são diversos por caráter, instrução e modo de falar, como podem sê-lo um caubói do Texas e um prelado romano. Bush jamais mascarou sua conduta antiintelectual. Seu conhecimento da história é tão limitado quanto seu conhecimento da geografia, das línguas estrangeiras e da filosofia. Uma coletânea de suas famigeradas gafes lingüísticas e lógicas (”Bushismos”) produziu muitas risadas. Sua visão do mundo está reclusa no modelo maniqueísta de oposição entre o bem (”nós”) e o mal (”eles”).
Contrariamente, Bento XVI gozou de uma excelente instrução clássica e aprendeu algumas línguas estrangeiras. Seu pensamento é subtil, sua linguagem refinada, suas ações prudentes. Por um quarto de século observou atentamente as coisas do mundo a partir das janelas do Vaticano. Nas decisões deixa-se guiar pelos usos centenários da Cúria romana, o corpo administrativo da Igreja católica romana. No entanto, os dois têm também muito em comum. Ambos adoram as aparições pomposas, sejam elas num avião ou diante das massas na praça de São Pedro. Por ocasião da visita do Papa, o Presidente tentou competir com o cerimonial imperial do pontífice romano recorrendo a uma guarda de honra e uma salva com 21 tiros de canhão. Tanto o Presidente como o Papa compartilham um comportamento conservador, sobretudo quando se trata de controle dos nascimentos, moral familiar, exibida devoção cristã. No caso do presidente, este comportamento parece antes fundamentalista; no caso do Papa, sobrecarregado de tradição. Obviamente, ambos pensavam que toda esta ostentação de fundamentos morais compartilhados tivesse o efeito de ganhar pontos com o público americano.
Em sua recente viagem de despedida pelas capitais européias, era evidente que o Presidente, que só encontrou fraca indiferença, bem como demonstrações hostis, foi anulado como um pato manco. Inabalável, repetiu o seu discurso sobre a luta pela liberdade e a democracia, pela “segurança” e a paz. Demonstrou deste modo sua versão pessoal de infalibilidade, que o torna incapaz de aprender qualquer coisa e o impede de aproveitar qualquer ocasião para admitir sua culpa ante o imenso desastre que suas ações criaram no mundo.
O Papa, ao invés, não é um pato manco. E, embora ele, segundo uma doutrina romana mais recente, ainda tenha certa “infalibilidade nas questões de fé e moral”, é, no entanto, capaz de aprender. Depois de tudo, concedeu a mim, seu crítico, uma amigável conversação de quatro horas na residência estiva de Castel Gandolfo, no decurso da qual mostrou uma surpreendente capacidade de dar passos em frente em suas reflexões. E, na viagem de 2006 à Turquia, corrigiu - com uma visita não programada a um mosteiro e uma clara expressão de alta consideração pelo Islã - as controversas observações sobre o Islã como religião de violência, feita alguns meses antes na Alemanha, na Universidade de Regensburg.

A.Ierardi
A comparação entre as atitudes de ambos é meramente circunstancial como colocarem-se lado a lado duas pessoas de pleno realce internacional e tentarem-se encontrar pontos coincidentes e divergentes.Quanto às aparições pomposas, pergunto ao eminente teólogo como seria a sua se estivesse no lugar de qualquer deles? “Dar passos em frente em suas reflexões” segundo palavras do próprio teólogo, é o ponto realmente muito positivo nessa dissertação!

Hans Küng

O Papa está no cargo há apenas três anos. Mas, não poderia aprender, pergunto-me, dos fracassos do presidente Bush? À sua grande inteligência e à sua sensibilidade não podem escapar os sinais admonitórios para o futuro de seu pontificado.

Assinalo cinco:

1. Com a reintrodução do tradicional rito latino na Missa, abolido pelo Concílio Vaticano II e por Paulo VI em favor de uma liturgia mais acessível em língua vernácula, atraiu muitas críticas no episcopado e entre os pastores.

A.Ierardi
O Moto-Proprio bem redigido e inspirado por Bento XVI sobre a reintrodução do rito latino na Missa, veio atender aos anseios de tantos religiosos e leigos católicos, que praticaram a liturgia antes de 1965 e mantiveram dentro de si as bases dessa prática, tornando a mudança litúrgica, que foi muito correta, definida pelo Concílio Vaticano II quase que impraticável no seu contato com as coisas do Pai. Evidentemente as críticas surgiram considerando-se que, no universo de tantos pensamentos diferentes em tantas cabeças, existe a população que não participou anteriormente da prática litúrgica do rito latino e observando assim que esta tenha sido uma volta a algo ultrapassado.Entretanto a atitude do papa pondera os dois lados com visão abrangente.

Hans Küng

2. No encontro com o patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, em Istambul, o Papa não deu sinais de compromisso em relação a direitos legais romanos medievais sobre as igrejas ortodoxas e assim não deu sequer um passo em frente para a reunificação entre Leste e Oeste.

A.Ierardi
Trago aqui alguns pronunciamentos do papa sobre o assunto referido:«A comunhão plena está orientada a uma comunhão na verdade e na caridade.Não podemos contentar-nos em ficar em estágios intermediários, mas temos de buscar sem cessar, com valentia, lucidez e humildade, a vontade de Jesus Cristo, ainda que isto não corresponda a nossos simples projetos humanos».

«A realização da unidade plena da Igreja e a reconciliação entre os cristãos exigem a submissão de nossas vontades à vontade do Senhor: Uma tarefa assim tem de comprometer os pastores, os teólogos e todas nossas comunidades, cada um segundo o papel que lhe é próprio».

Dado que as feridas históricas são tão difíceis de cicatrizar desde há já quase mil anos, o Papa reconheceu que «para avançar no caminho da unidade não são suficientes nossas frágeis forças».

«Temos de pedir a ajuda do Senhor, através de uma oração cada vez mais insistente, pois a unidade é antes de tudo um dom de Deus», concluiu.

Uma vez mais a atitude do papa é de muita esperança, fé e sobretudo cautela para um assunto tão remoto!

Hans Küng
3. Com as aparições públicas em suntuosas vestes litúrgicas no estilo de Leão X, que queria degustar o pontificado em todos os seus ágios e que encerra a principal responsabilidade pelo “não” de Roma às exigências de Reforma de Lutero, Bento XVI confirmou a idéia de muitos protestantes de que o Papa não conhece em profundidade a Reforma.

A.Ierardi
O porta-voz autorizado do vaticano explicou que o Papa Bento XVI deseja demonstrar, com estes resgates de vestuário, também exteriormente, continuidade em relação a seus antecessores: os papas passam, mas a tradição ultrapassa suas pessoas. Quanto ao fato das exigências de Reforma de Lutero, ninguém melhor que Bento XVI, conterrâneo e profundo conhecedor a teologia católica e cristã, para entender se a atitude em sua indumentária é nociva à pratica católica de hoje. Bento XVI conhece perfeitamente o outro lado e sabe conduzir em seus intentos inspirados a nação católica num perfeito pensamento coerente e litúrgico.

Hans Küng
4. Mantendo rigidamente a lei medieval do celibato para o clero ocidental, tem a principal responsabilidade pelo declínio do sacerdócio católico em muitos países e pelo desmoronamento das tradicionais estruturas da cura pastoral nas sempre mais numerosas comunidades que ficaram sem padres.

A.Ierardi
A princípio causa-me estranheza a visão negativa do período medieval que parece ter o teólogo articulista. Todo bom católico bem sabe que a Igreja na Idade Média salvou a cultura e civilização ocidental dos ataques bárbaros e teve preclaros pensadores, filósofos, teólogos, cientistas, engenheiros e arquitetos. A mentalidade pois que houve naquela época estendeu-se até nós no melhor aproveitamento de experiências oportunas, ainda que os iluministas tentassem distorcer essas idéias.

Nos dias de hoje apenas coloco em questão se a população celibatária de cerca de  1.300.000 sacerdotes, religiosos e religiosas no planeta têm a intenção de mudar o seu compromisso de castidade um dia oferecido ao Pai. João Paulo II disse uma vez :”A doutrina católica é dura, mas não decepciona!”

A afirmação de declínio e desmoronamento é exagerada , visto que ainda que assim fosse, a Igreja irá permanecer, como aconteceu nesses mais de 2.000 anos. Isso é do evangelho!

Hans Küng
5. Insistindo na perniciosa encíclica Humanae Vitae contra qualquer forma de controle dos nascimentos, o Papa compartilha a responsabilidade da superpopulação, sobretudo, nos países mais pobres, e da ulterior difusão da Aids.

A.Ierardi
“João Paulo II tomou uma decisão sobre a «Humanae Vitae» e a deixou nas mãos do Espírito Santo. Isso é algo verdadeiramente notável. Tudo o que precisamos dele para que seja santo é compreender o momento em que ele tomou a decisão de escrever a «Humanae Vitae». A publicação dessa encíclica foi duríssima. Ter tomado essa decisão é verdadeiramente um milagre. Esse milagre já é suficiente para que ele seja canonizado. Ele era uma pessoa muito, muito santa, e tomou provavelmente uma das decisões mais dura – se não a mais dura – do século XX. Mas era a correta. Espero que ele seja canonizado.” São palavras de Dr. Thomas Hilgers, co-fundador do instituto Paulo VI, de Omaha, Nebraska, desenvolveu o Creighton Model Fertility Care System e é autor de “The Medical and Surgical Applications of NaProTechnology” (Aplicações médicas e cirúrgicas da NaProTechnology).

Evidentemente Bento XVI, com toda a sabedoria com que é dotado e a inspiração em seu pontificado, segue os mesmos passos e mostra aos católicos que de fato as regras a serem cumpridas são duras, mas Cristo não nos deixa outra alternativa.

Hans Küng
Aquela que o jornalista Jacob Weisberg chama de “a tragédia de Bush” não deveria induzir Bento XVI a pensar mais atentamente em suas ações? Mal aconselhado pelos neoconservadores e tenazmente apoiado pela mídia complacente, Bush queria levar o seu país a uma “nova era americana”. Agora termina sua carreira de falido, a muito custo respeitado por seu próprio partido. “Sapienti sat” - “isto basta a quem entende” - costumavam dizer os antigos romanos. Quem conhece a situação da Igreja não necessita de ulteriores explicações.

A.Ierardi
Como Bento XVI hoje convive com todas as lideranças das nações, faz com perfeição o seu papel de sumo pontífice católico, de abrangência universal, conduzindo com maestria e segurança os ditames da Igreja Católica no mundo. É preciso, pois confiar e esperar sempre nesta vida a sublime realização da outra vida que será eterna. Se há governo, somos a favor! Sugiro essa mudança de pensamento!

(site Adital)